A conjuntura atual de Santa Catarina: situação e perspectivas para a classe trabalhadora

Conjuntura política

O segundo governo de Raimundo Colombo reforça no campo político a hegemonia capitalista em Santa Catarina. Apesar de fissuras, o pacto conservador deverá seguir forte no Estado, inclusive com a adesão ao governo dos “comunistas” do PcdoB (que, com sua base sindical, garantirão a cooptação de parcela significativa de dirigentes da classe trabalhadora e de suas bases ao pacto conservador) e do PP ao governo.

Este último, mesmo tendo lançado candidatura de oposição à direita em 2014, foi agraciado com a nomeação do um de seus principais deputados, o “conciliador” Silvio Dreveck, como o novo líder do governo Colombo na Assembleia Legislativa, num caso emblemático da maneira oportunista que a burguesia faz política em Santa Catarina: conforme nós do PCB já apontávamos desde o ano passado, os diferentes grupos conservadores se dividem nas eleições, frequentemente atacando uns aos outros das maneiras mais baixas, para depois se unirem todos no governo, sendo a distribuição de cargos na administração pública e nas estatais o que os unifica. 

O ano de 2015 vem para confirmar que, na atual conjuntura, as diferentes tendências do “partido único” conservador se dividem durante as eleições não por divergências políticas ou de princípios, mas unicamente para medir forças entre elas, visando tão somente barganhar uma melhor posição no novo governo (e por tabela, legitimar a ordem política, passando ao povo a falsa impressão de que possui liberdade de escolha no sistema político capitalista). No atual momento, somente o PT e o PSDB ainda não entraram oficialmente para o governo Colombo. Porém, a aproximação de ambos pode ser apenas uma questão de tempo. O primeiro já é um forte aliado de Colombo no governo federal, e o último, que construiu através da candidatura de Paulo Bauer o principal bloco da falsa polarização nas eleições passadas, deverá se reaproximar gradativamente do governo, ou para fazer uma “oposição responsável” (ou seja, governismo envergonhado) ou mesmo para aderir oficialmente ao governo, o que significaria uma unidade política das forças conservadoras sem precedentes na História catarinense, com 100% da Assembleia Legislativa unida em torno do governo.

Por outro lado, mesmo não estando descartado que o PSDB reconstrua um foco de oposição conservadora ao governo (tendo em vista o projeto tucano de encabeçar o pacto conservador nos planos regional e nacional em 2018, tendência que depende em grande medida do futuro da crise econômica), isso pouco significará para o povo trabalhador. Pois além da sede de cargos e verbas, há entre os partidos burgueses importantes consensos sobre como governar o Estado capitalista (com concessões aos interesses do grande capital, em prejuízo ao povo trabalhador combatendo os movimentos sindical e social através da repressão ou da cooptação), de tal maneira que, na prática, as diferenças entre os inúmeros partidos conservadores são praticamente inexistentes, fazendo do bordão “todos por Santa Catarina” uma piada de muito mal gosto.

Um elemento vital para garantir a estabilidade da ordem capitalista em Santa Catarina é a completa adesão da grande mídia privada ao pacto conservador. A “parceria” da imprensa local com a ordem estabelecida é garantida, em primeiro lugar, pela corrupção. De acordo com o Tribunal de Contas do Estado, somente em 2013, o governo repassou uma propina equivalente a R$ 111,8 milhões aos grandes grupos de mídia, legalizada sob a insuspeita rubrica de “gastos com publicidade” [01], para garantir a união de interesses entre Estado e imprensa. Os sinais dessa aliança nefasta (cuja consequência óbvia é a completa destruição de qualquer esperança de democracia nos marcos do capitalismo) são facilmente percebidos nos noticiários do dia a dia, em que a imprensa pode até invariavelmente expor as mazelas do Estado (pois, afinal, precisa vender notícias), mas sempre de maneira “responsável” e “construtiva”, e acima de tudo, sem jamais apontar as responsabilidades da pessoa do governador ou de seus aliados mais próximos. Esta blindagem midiática é um dos principais fatores que explicam a vitória tranquila de Raimundo Colombo ainda no primeiro turno, mesmo com a grave crise social que passa a população catarinense.

Além das relações mercantis, a uniformidade do discurso do Estado e da mídia, indispensável à estabilidade da ordem, é garantida por interesses e visões de mundo em comum (o Estado capitalista, representante dos interesses da classe dominante, a burguesia ou empresariado, tende naturalmente a possuir os mesmos objetivos e a pensar da mesma maneira que uma imprensa majoritariamente privada). O grau desse promíscuo envolvimento entre Estado e imprensa em Santa Catarina é exemplificado pela recente nomeação de Walter Bier, ex-diretor de Jornais e Internet da RBS (maior grupo de mídia local), ao cargo de Secretário de Comunicação Social do governo [02].

Outro fator decisivo que mantém a solidez do pacto conservador em Santa Catarina são as chamadas Secretarias de Desenvolvimento Regional (SDR’s), fabulosa máquina burocrática criada pelo governo Luiz Henrique que apenas no ano de 2013 apresentou um gasto de mais de R$ 420 milhões e que se constitui em um gigantesco cabide de empregos capaz de saciar toda a desmensurada sede de cargos dos inúmeros partidos representados na Assembleia Legislativa, garantindo assim a ampla coalizão necessária para a sustentação política do pacto conservador catarinense. Expressão de que as SDRs são verdadeiros comitês permanentes de campanha é o fato de mais da metade dos servidores das regionais são filiados aos partidos políticos que compõem o governo.

Conjuntura econômica

Como é de regra na ordem do capital, o grau de mobilização e disposição à luta da classe trabalhadora está intimamente associado às condições objetivas, ou seja, às condições de vida do povo. Santa Catarina não foge a essa regra, e por este ângulo, as perspectivas contraditórias do desempenho futuro da economia tornam incerta a situação da luta de classes no Estado em 2015.

Por um lado, os constantes índices de crescimento econômico acima da média nacional e o prometido programa de investimentos do governo estadual (o chamado “Pacto por Santa Catarina”, com previsão de investimentos na ordem de R$ 10 bilhões, com recursos do BNDES, Banco do Brasil e bancos estrangeiros), podem manter um ciclo de relativa prosperidade capaz de aliviar as tensões sociais e conservar a solidez do pacto conservador reinante. Por outro, diversas tendências à recessão surgem ou persistem, como o “programa de ajuste” neoliberal do governo federal (encampadas também pelo governo Colombo, que promete um corte radical nos “desperdícios” da máquina pública, a proliferação da “gestão por resultados” e até uma sugerida “reforma da previdência” no IPREV) [03], a pressão imposta pela forte migração da população de outros Estados em busca do “paraíso catarinense” (que faz com que Santa Catarina tenha quase o dobro do crescimento populacional do Brasil, apesar da taxa de fecundidade estar abaixo da média nacional) [04], os constantes aumentos em energia, gás e combustível e o seríssimo gargalo da infra-estrutura (sucateamento de estatais como CELESC e CASAN; o precaríssimo estado de conservação da já hipercarregada malha viária; a quase inexistente malha ferroviária, etc.). Todos esses fatores podem levar a uma desaceleração econômica com óbvias consequências nos salários e nos níveis de emprego, podendo aguçar as contradições de classe e provocar fissuras no pacto conservador.

Apesar das contra-tendências mencionadas, a economia catarinense registrou em 2014 crescimento acima da média nacional pelo quinto ano consecutivo, com destaque para o crescimento da indústria em geral, especialmente o setor têxtil (crescimento de 17,5%) [05]. Foi também um dos Estados que mais gerou empregos no Brasil, possuindo a menor taxa de desemprego oficial (3%) [06]. Tais dados, porém, podem ser enganosos. O “grande crescimento” do ano passado foi de apenas modestos 3,5% [07], havendo queda no faturamento no setor do comércio, prenunciando tempos difíceis para o setor que mais emprega no Estado. Também o alto nível de emprego não encontra reflexo nos salários. De acordo com o Ministério do Trabalho, o salário mínimo regional (entre R$ 909 e 1040) [08] e o rendimento médio do trabalhador catarinense (R$ 1245 em 2014) [09] ficam bem abaixo do salário mínimo necessário apontado pelo DIEESE (R$ 3180) [10]. O baixo nível dos salários fica ainda mais gritante quando se comparada com a renda per capita do Estado (riqueza produzida por habitante), de quase trinta mil reais! A contradição entre altos níveis de emprego e baixos salários é característica do capitalismo em Santa Catarina, com uma economia que, apesar dos discursos triunfalistas do governo, ainda é bastante atrasada, dependente de produtos primários (agricultura, extrativismo) e de pouco valor agregado (indústrias leves e de baixa tecnologia e especialização). Some-se isso à grande quantidade de trabalhadores sem carteira assinada, às terceirizações, subcontratações, empregados “com CNPJ”, o trabalho assalariado domiciliar (usado em larga escala pelas indústrias têxtil e calçadista para burlar a legislação trabalhista) e se terá uma ideia do nível de exploração a que o trabalhador catarinense é submetido. A superexploração do trabalho também se revela através do número de trabalhadores afastados por acidentes de trabalho, que é o maior índice do país [11].

Embora Santa Catarina seja no geral o Estado menos desigual do Brasil, no quesito de gênero o Estado tem os piores índices de desigualdade de todo o País [12], com as mulheres recebendo menos de dois terços do salário dos homens pela mesma função realizada, atestando a condição de superexploração da trabalhadora catarinense. Os indicadores sociais do Estado, embora sejam os melhores do Brasil, põem longe da realidade o discurso oficial de um padrão de vida “de primeiro mundo”: a mortalidade infantil catarinense é de 10,1 por mil nascimentos, enquanto em Cuba é de 4,2 por mil e no Japão é de 2 por mil. Além do mais, de 2013 a 2014 Santa Catarina registrou um aumento de quase 10% na sua mortalidade infantil [13][14]. Mas a difícil situação de vida do povo trabalhador em Santa Catarina é revelada principalmente pelos índices de pobreza e de habitação. Segundo a COHAB, o deficit habitacional está entre 130 mil e 140 mil moradias [15], o que, considerando o tamanho médio da família catarinense (de 3 indivíduos por família), significa que uma população maior que a de Blumenau e quase igual à de Florianópolis vive em habitações precárias e/ou necessita urgentemente de uma nova moradia. Também, de acordo com dados do próprio Estado, 115 mil catarinenses (o equivalente à população de Brusque) [16], vivem em situação de miséria extrema. No que diz respeito ao saneamento básico vivemos uma situação de calamidade pública, pois a falta de investimentos leva Santa Catarina a atender apenas 14% de sua população com rede de saneamento básico [17]! Responsável pelo saneamento básico em grande parte do Estado, a Companhia Estadual de Saneamento, (CASAN) passa por um momento de grandes investimentos para expansão do fornecimento de água e do tratamento de esgoto em Santa Catarina, mas nada indica que esse dinheiro será usado para corrigir os sérios problemas ambientais e de qualidade do serviço nos sistemas já implantados pela Companhia. O dinheiro dos investimentos serve como um forte atrativo aos privatistas de plantão, que ignoraram a empresa enquanto ela foi o “primo pobre” das estatais catarinenses. Atendendo mais uma vez os interesses do capital, Colombo prepara para seu segundo mandato a venda das ações da Casan (que ainda é cem por cento estatal) a um sócio minoritário, porém com superpoderes (o chamado “parceiro estratégico”). Pra piorar, o sindicato da Casan se encontra há anos aparelhado pelo PcdoB, partido que acabou de oficializar sua entrada no governo do Estado. A categoria do trabalhador da CASAN, ainda traumatizada pelas municipalizações dos serviços de saneamento da década passada (que fizeram a CASAN perder alguns dos maiores sistemas do Estado e quase ir à falência) e enfraquecida por estar a dez anos sem realizar uma greve, não encontra muitas forças para lutar contra tais ameaças. Tendo, porém, uma situação salarial relativamente melhor que a grande maioria dos trabalhadores catarinenses, o servidor da Casan não tardará a sentir na pele que os planos do capital para a sua empresa implicam na retirada sistemática de direitos, abrindo perspectivas para o crescimento da luta de classes neste setor nos próximos anos.

Além da economia, há também outros fatores que podem definir o futuro da luta de classes em Santa Catarina. Surpreendentemente, o Estado é o mais “proletário” do Brasil (tendo disparado o maior percentual de sua força de trabalho empregada na indústria) [18], o que do ponto de vista objetivo, poderia conferir à Santa Catarina a capacidade de se tornar a vanguarda de um possível crescimento das lutas e do movimento operário no Brasil. Porém, a extrema pulverização do operariado catarinense (característica típica do modelo de industrialização do estado, reforçada pelo atual estágio de desenvolvimento do capital, com sua dispersão física da classe trabalhadora), bem como a distribuição relativamente homogênea deste operariado em espaços urbanos não tão populosos (ausência de grandes metrópoles e de suas contradições mais gritantes) são fatores que dificultam enormemente a elevação da consciência de classe e a capacidade de organização da classe trabalhadora em Santa Catarina.

Situação da educação e da saúde

Exemplo do descaso dos sucessivos governos conservadores com serviços essenciais à população é dado pela situação da educação e da saúde no Estado. De acordo com o Tribunal de Contas do Estado (TCE) [01], desde o segundo mandato do governo Luiz Henrique o governo catarinense vem diminuindo os investimentos em educação, razão pela qual até mesmo o TCE reconhece o sucateamento das escolas [01]. O governo estadual tem violado constantemente suas próprias leis, não repassando o mínimo legalmente exigido para a assistência estudantil e para a pesquisa científica. Também de acordo com próprio TCE, o Estado tem maquiado sistematicamente seu balanço contábil de forma a inflar dados ou deixar de investir o mínimo exigido por lei em educação e saúde, tendo na prática deixado de repassar a esses setores cerca de meio bilhão de reais desde 2005 [01].

Na saúde em específico, a situação é caótica. Em 2013, foram investidos R$ 77 milhões no setor, 27% a menos que em 2012, sendo que o valor destinado à ampliação, reformas e à aquisição de equipamentos foi o menor dos últimos cinco anos [01]. Como resultado, filas de espera para cirurgias de milhares de pessoas (mais de 6 mil no Regional de São José), leitos e equipamentos sem uso por falta de verbas e de pessoal e até mesmo prédios de hospitais em ruínas. Sem opções de tratamento de maior complexidade no interior, a chamada “ambulancioterapia” (viagens de pacientes para os principais centros urbanos em busca de atendimentos específicos) é uma constante cruel na vida do catarinense. Outro problema no setor é a alta rotatividade de pessoal, resultado direto das terceirizações e das privatizações no setor.

Ainda no governo Luiz Henrique, o Estado catarinense encontrou o caminho para viabilizar a privatização dos serviços públicos de saúde através das chamadas “Organizações Sociais” (OS’s). Alegando sua própria incapacidade (?!) em administrar os serviços de saúde pública, o Estado concede a entidades de direito privado (as OS’s), supostamente sem fins lucrativos, a administração de hospitais e instituições de saúde, concedendo-lhes total autonomia para gerenciar os serviços – tudo mantido com recursos públicos! Com o aval estatal, as OS’s têm liberdade para dispor de servidores públicos, assim como utilizar leitos e outras estruturas estatais, podendo contratar funcionários sem concurso público, comprar materiais sem licitação e fazer a gestão de acordo com seus próprios critérios, podendo inclusive usar a estrutura pública para atender convênios privados e particulares, colocando assim a saúde pública a serviço da acumulação privada de capital e prejudicando o já precário atendimento aos usuários do SUS. Além do mais, os serviços da OS são supostamente avaliados de acordo com “metas de produtividade” totalmente artificiais, avaliando unicamente a quantidade de serviços realizados e não sua qualidade.

Dois casos típicos de como as OS’s desrespeitam os direitos dos seus trabalhadores e da população, tudo com a cumplicidade do Estado, são representados pelos casos do SAMU e do Hospital Materno Infantil de Joinville. Entregue pelo governo Colombo à OS paulista SPDM, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência vem passando por uma crise aguda. Desde outubro passado, a SPDM, que também administra o Hospital Florianópolis, vem atrasando os pagamentos dos salários de seus funcionários [19]. A empresa, que também descumpre a carga horária dos empregados (obrigando-os a exceder as 30 horas semanais previstas no contrato), alega falta de repasse de verbas por parte do Estado, ignorando que três em cada quatro funcionários do SAMU foram contratados pela SPDM, e portanto deveriam ser de sua inteira responsabilidade. No começo de janeiro, em luta por seus direitos, os trabalhadores da SPDM entraram em estado de greve, e já se fala até em rescindir o contrato da empresa – para, a seguir, entregar o SAMU a outra OS! Já o hospital de Joinville, que foi entregue em 2008 para a OS paranaense HNSG logo depois do Estado ter investido mais de R$ 15 milhões, teve a sua ala de tratamento de queimados fechada em 2011 por decisão conjunta da OS e do Governo do Estado [20] , que alegaram que tal unidade “custava muito caro” por conta da pouca demanda e que não dera o “retorno” esperado… Isso mesmo com o argumento que as OS’s não teriam fins lucrativos! O processo de tratamento de queimados costuma ser longo, o que obviamente reduz o “retorno” e não interessa a um modelo de saúde pautado pela lógica mercantil.

A rejeição das OS’s por entidades como o Conselho Estadual de Saúde de Santa Catarina e o Fórum Catarinense em Defesa do SUS, encontra respaldo em levantamentos como o do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP), que demonstrou que, nas OS’s paulistas, um cateter que era comprado através de licitação por R$ 0,55, custava para uma Organização Social R$ 2,55 [21]. Outro estudo do TCE-SP também demonstrou que em estabelecimentos hospitalares administrados por OS’s, em São Paulo, a mortalidade é maior e o número de funcionários por leito menor do que nos hospitais administrados pelo Estado. O repúdio às OS’s é referendado até mesmo pela justiça burguesa, através de inúmeras ações judiciais que apontam a flagrante ilegalidade da prática privatista, como a da Juíza do Trabalho Ângela Maria Konrath, que determinou ao Estado se abster de contratar pessoal sem concurso público e terceirizar atividade fim na área de saúde. Na sua decisão, a juíza declarou: “É preocupante a prática de transferência de unidades hospitalares, prédios, móveis, equipamentos, recursos públicos e pessoal, no todo ou em parte, para a iniciativa privada, que passa a dispor desses meios como se fossem seus, recebendo, em contrapartida, recursos públicos, gerindo-os como se fossem particulares” [22]. Em recurso junto ao Tribunal Superior do Trabalho em 2011, o Estado foi novamente proibido de realizar contrato com Organizações Sociais. A ação foi julgada em transitado, ou seja, não há mais possibilidade de se recorrer da decisão.

Porém, mesmo com todas essas decisões em contrário, o Estado sob o governo de Colombo segue impunemente privatizando a saúde pública para as OS’s, entregando para o capital privado o Centro de Pesquisas Oncológicas (Cepon); o Centro de Hematologia e Hemoterapia de Santa Catarina (Hemosc); o Hospital de Araranguá; parte do Hospital Regional e o Hospital Materno Infantil, ambos de Joinville; o Hospital de São Miguel do Oeste, o Hospital Florianópolis e a UTI do Hospital de Ibirama, demonstrando mais uma vez que, quando é do interesse do capital, o Estado não tem a menor vergonha de desrespeitar suas próprias regras. Os privilégios concedidos ao capital privado são tão escancarados que muitos desses hospitais foram privatizados após investimentos e/ou reformas milionárias custeadas pelo Estado! Isso sem contar as reformas e ampliações de hospitais particulares com recursos públicos, como os de Criciúma, Braço do Norte e Joaçaba, para os quais o Estado repassou R$ 25 milhões [23]! E a sangria de recursos públicos aos cofres privados não para por aí: recentemente, o Estado reconheceu que, de acordo com contratos firmados com hospitais particulares e diversas OS’s, deve a essas entidades mais de R$ 200 milhões! Em sua primeira agenda do segundo mandato, Colombo viajou pelo interior do Estado acompanhado do novo secretário da Saúde, João Paulo Kleinubing, anunciando que pretende “honrar” a dívida até o fim do ano… [24]

A educação vem sofrendo ataques sucessivos e um processo de desmonte e precarização contínuos pelo governo Colombo, que só tem feito continuar as políticas adotadas pelos governos anteriores e alinhando-se as políticas nacionais de cortes de gastos e de submissão da educação a lógica privada.

O processo de municipalização, um dos principais pilares do desmonte da educação em Santa Catarina, aprofundou-se depois de 2011, quando da edição do Decreto 671/2011, a partir do qual o repasse da administração das escolas de ensino fundamental vem sendo repassadas sistematicamente para os municípios, em um processo que desmonta a educação pública. Este processo vem acompanhado da falta de investimentos na educação como um todo. Dados do TCE/SC apontam que o investimento mínimo de 25% estabelecidos em lei não tem sido cumpridos pelo governo. Além de não atingir esse percentual uma parte dos investimentos declarados são inchados com declarações de despesas que não são condizentes com a educação [01].

O descaso com a educação reflete-se no sucateamento e na precarização da estrutura física, nas condições de trabalho e na falta de capacitação dos educadores catarinenses. Não é a toa que os trabalhadores em educação são os que mais sofrem com doenças e problemas de saúde originados de uma rotina de trabalho estafante e desumana. O desmonte atinge a educação básica e a educação superior, com a UDESC sofrendo com cortes sucessivos de investimentos.

Dentre os principais ataques a educação pública catarinense está a extinção da carreira do magistério. Após a greve de 2011 os educadores sofreram um dos maiores ataques aos seus direitos ao verem compactada a tabela salarial (construída historicamente através de lutas e mobilizações) que desvalorizou de forma absurda a formação e a trajetória profissional dos educadores. A proposta de “descompactação” da tabela salarial apresentada pelo governo Colombo consiste em um pacote de medidas que precariza ainda mais a educação ao não recompor as perdas salariais que os educadores sofreram nos últimos anos; ao quebrar a paridade entre ativos e inativos; ao desindexar a tabela salarial do reajuste anual do piso, com a retirada do nível médio da carreira, ao desvincular o professor ACT da tabela (que representa quase 50% dos educadores na ativa), inclusive reduzindo o salário nominal destes trabalhadores da educação. A perda de direitos históricos como a regência de classe e da licença prêmio também são partes de uma política perversa que atinge diretamente a qualidade da educação que atende os(as) filhos(as) dos(as) trabalhadores(as) catarinenses.

A categoria dos professores estaduais, que recentemente realizou greves históricas como a de 2011, mobilizando por mais de dois meses milhares de professores, quase cem por cento da categoria, contra os salários de fome e em luta pela aplicação do piso nacional, tem suas recentes (e ainda que limitadas) conquistas sob constante ameaça. A conquista do piso, imposta contra a vontade do governador Colombo, foi em grande parte perdida pela compactação do plano de cargos, de forma que o “proletarizado” professor da rede estadual catarinense segue recebendo salário inferior ao mínimo do DIEESE por uma jornada superior a 40 horas, enfrentando contratos precários (ACT), repressão governista a sua livre organização e ainda por cima um sindicato burocratizado e atrelado ao PT, aliado de Colombo no governo federal. O ano começa com mais negociações com o governo visando a descompactação da escala salarial, porém as malsucedidas greves dos últimos anos enfraqueceram a categoria, fazendo aumentar a desconfiança desta com relação à direção sindical, além de fazer proliferar o desânimo e a desmobilização, que só poderão ser revertidas em um amplo processo de mobilização pela base.

A luta de classes no Estado

Além da situação dos professores estaduais, há diversos outros exemplos de como o pacto conservador do Estado tem logrado em controlar por inúmeros meios muitas das principais categorias sindicais de Santa Catarina, de forma a praticamente não encontrar resistências no seu projeto de “modernização conservadora”, com suas reformas que visam consolidar um Estado mínimo para o povo trabalhador e máximo para o capital privado.

Porém, exemplos de importantes mobilizações do ano passado mostram que a classe trabalhadora catarinense ainda tem potencial para realizar lutas significativas, ainda que pontuais, contra o domínio do capital. A greve dos servidores públicos de Blumenau, realizada inclusive sob ameaças de prisão dos líderes do movimento, demonstra que ainda é possível empurrar as velhas direções sindicais rumo a grandes enfrentamentos. Inclusive, a classe trabalhadora pode reconquistar seu sindicato para as lutas batendo de frente com direções engessadas, como na greve dos motoristas e cobradores de Criciúma do ano passado, em que a primeira conquista do movimento auto-organizado dos trabalhadores foi o direito de representar a si mesmo perante o Tribunal do Trabalho para as negociações com o sindicato patronal.

Referências:

[01] http://www.tce.sc.gov.br/noticia/10304/tcesc-recomenda-aprova%C3%A7%C3%A3o-das-contas2013-do-governo-mas-educa%C3%A7%C3%A3o-e-sa%C3%BAde-est%C3%A3o-entre

[02] http://www.sc.gov.br/index.php/mais-sobre-desenvolvimento-economico/12445-walter-bier-e-o-novo-secretario-de-estado-da-comunicacao

[03] http://diariocatarinense.clicrbs.com.br/sc/politica/noticia/2015/01/raimundo-colombo-promete-cortes-de-gastos-para-o-inicio-deste-segundo-mandato-4690098.html

[04] http://diariocatarinense.clicrbs.com.br/sc/geral/noticia/2014/08/migracao-e-principal-motivo-de-crescimento-populacional-em-santa-catarina-4586836.html

[05] http://lprbrasil.com/novidades/detalhes/sector-textil-de-santa-catarina-crecio-1746-en-2014/

[06] http://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2014/12/sc-e-o-terceiro-estado-do-pais-em-geracao-de-empregos-em-novembro.html

[07] http://www.sef.sc.gov.br/noticias/indicadores-apontam-crescimento-de-santa-catarina-acima-do-pib-nacional-em-2014

[08] http://ndonline.com.br/florianopolis/noticias/230955-salario-minimo-regional-e-atualizado-em-santa-catarina-com-aumento-de-8-84.html

[09] http://www.ibge.gov.br/estadosat/perfil.php?sigla=sc

[10] http://www.dieese.org.br/analisecestabasica/salarioMinimo.html

[11] http://ndonline.com.br/joinville/noticias/162714-ato-publico-marca-dia-de-prevencao-a-acidentes-e-doencas-do-trabalho-em-joinville.html

[12] http://diariocatarinense.clicrbs.com.br/sc/geral/noticia/2014/09/santa-catarina-tem-a-menor-desigualdade-do-pais-de-acordo-com-ibge-4601078.html

[13] http://diariocatarinense.clicrbs.com.br/sc/noticia/2014/12/santa-catarina-tem-maior-expectativa-de-vida-e-menores-indices-de-mortalidade-na-infancia-do-brasil-segundo-ibge-4654422.html

[14] http://diariocatarinense.clicrbs.com.br/sc/geral/noticia/2013/08/santa-catarina-tem-a-menor-taxa-de-mortalidade-infantil-e-a-maior-expectativa-de-vida-do-brasil-4221135.html

[15] http://www.cohab.sc.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=100&Itemid=110

[16] http://noticias.r7.com/brasil/infograficos/saiba-onde-vivem-as-pessoas-em-situacao-de-pobreza-extrema-no-brasil.html

[17] http://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2014/03/14-da-populacao-e-atendida-por-rede-de-saneamento-basico-em-sc.html

[18] http://wp.clicrbs.com.br/estelabenetti/2014/11/06/sc-lidera-percentual-de-emprego-na-industria/?topo=67,2,18,,,67

[19] http://www.fetessesc.com.br/index.php/2014/11/14/spdm-que-administra-o-samu-em-santa-catarina-atrasa-salarios-de-outubro/

[20] http://www.sargentosoares.com.br/video/229/Sargento_Soares_denuncia_fechamento_da_ala_de_queimados_do_Hospital_Infantil_de_Joinville.html

[21] http://www.contraprivatizacao.com.br/2013/11/0800.html

[22] http://agenciaal.alesc.sc.gov.br/index.php/gabinetes_single/dos-gabinetes-justica-do-trabalho-proibe-contratacaeo-sem-concurso-publico-

[23] http://diariocatarinense.clicrbs.com.br/sc/politica/eleicoes-2014/noticia/2014/09/mitos-e-verdades-dos-discursos-dos-candidatos-ao-governo-de-sc-no-horario-eleitoral-obrigatorio-4597627.html

[24] http://wp.clicrbs.com.br/moacirpereira/2015/01/09/incompleto-governo-realiza-primeira-reuniao-do-ano/?topo=67,2,18,,,67

Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

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